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Parto em casa, naturalmente

Foi ali. Os azulejos, suados como eu, ecoavam meu grito: “Tá vindo! Tá vindo tudo! Tá vindo inteira!”. Numa só contração, todo seu corpinho desceu, minhas mãos crispadas nos braços do meu companheiro, imobilizando qualquer movimento dele. Nem eu nem ele a seguramos. A água a acolheu. Ela nasceu flutuando, como uma flor de lótus. Em segundos, surgiram as mãos hábeis e experientes da parteira, elevando-a ao alcance das minhas.

O grito virou sussurro. “Meu amor, meu amor, meu amor” – eu repetia, como um mantra, segurando aquela florzinha na altura do ventre, tentando caminhar do banheiro até a cama amparada por seis mãos, a placenta ainda em mim, o cordão ainda pulsando, o corpo trêmulo, o rosto úmido de suor e lágrimas.

Amarilis, a rara flor que surgiu de madrugada, iluminou a noite.

Cinco horas de parto ativo. Intensas contrações que não davam nenhuma trégua. Nenhuma. Vinham a cada minuto. Meu corpo tomado pelas vibrações selvagens daquele corpinho se expandindo em meu ventre, abrindo espaço em minhas entranhas, procurando o caminho para nosso encontro.

Nenhum descanso.

Meu repouso era o olhar amoroso da Niti, as mãos fortes do Diego, a fala segura da Adelita. Meu repouso era a tentativa de apenas observar – que durava por alguns segundos até a próxima contração. Meu repouso era a certeza de que eu era capaz. Eu, que havia parido o Gael em casa depois de 4 dias de trabalho de parto. Eu, que chorei litros quando me dei conta que ele poderia não estar aqui. Eu, que tinha superado a mastite, as fissuras, as dores e que o amamentei por 3 anos e meio. Eu, que busquei cuidar de mim, das minhas feridas, da minha criança, do meu feminino sagrado, da minha mulheridade, para acolher esse novo ser em meu ventre. Eu sabia que eu era capaz.

Nessa crença em mim mesma, mas sem nenhuma certeza de mais nada, mergulhei. Um parto é rara ocasião de exercitar a entrega, o desapego, a confiança na fluidez da vida. A gestação, o momento de ir largando o controle e se permitir apenas sentir – o próprio corpo, o bebê, o que a alma pede.

A gestação da Amarilis foi intensa, cheia de dores, incômodos, inseguranças. Eu sabia desde o início que seria uma menina – o que confirmamos só bem no finzinho da gravidez. Meu corpo todo sabia, minha alma sentia aquela energia feminina, amorosa, forte, vulnerável. Meu corpo abrigava uma nova menina. E a Maristela menina exultante, confusa e com medo, veio à tona várias vezes. Eu a acolhi, cuidei dela, a amei como hoje amo minha filha. É preciso olhar para nossa própria criança para aprender a acolher as que nascem da gente.

A gestação foi intensa também num outro nível: ao lado das dores, vinha a potência criativa que me impulsionou a escrever um livro, a oferecer duas vivências, a criar um percurso online para outras mães. Acessar minha potência durante a gravidez foi uma experiência de muita transformação. Venci o medo de me expor, de mostrar o que escrevo, de pedir ajuda, de falar a verdade que me habita. Amarilis trouxe muita cura desde o início.

bebê recém-nascido

Amarilis, flor de amor e luz.

Seu nome me veio numa tarde. Achei sonoro, límpido, angelical, plural. Fui pesquisar o que significava. “Aquela que desperta amorosidade. Brilhante. Luminosa”. Não tive mais nenhuma dúvida. Contei ao Gael, que confirmou: sim, mamãe, é esse o nome dela. Ele, que desde antes de eu confirmar a gestação, com sua fina intuição infantil, já sabia que uma irmãzinha estava ali. Sempre confie nas crianças.

A escolha do nome estava feita. Brilhante. Luminosa. Despertando amorosidade desde o início de tudo.

Pois ela nasceu assim: irrompendo a madrugada, desabrochando de uma só vez. Era um domingo. Sete dias antes, Gael completava 4 anos. E aguardava a vinda da irmã. “Vem logo, irmãzinha. Aqui fora é muito legal”, ele dizia, quando a enfermeira o deixava ouvir o coraçãozinho nas visitas de pré-natal. O coraçãozinho acelerava. E o meu se derretia.

Começou com uma contração suave no almoço de sábado. Nem liguei. Apenas uma contração. Poderia demorar muitas horas, ainda, ou até dias. Acabei de fazer o almoço, fiz um bolo, costurei as bainhas dos cueiros. No meio da tarde, mais uma. Eu, tranquila. À noite, preparando um creme de mandioca para o jantar, meu corpo começou a ser tomado pelas ondas com mais frequência. Eu vou terminar o jantar, pensava. Terminei, arrumei a mesa, comecei a comer. Duas colheradas e uma inclinada na poltrona, pra suportar a dor. Gael olhava, num misto de preocupação e curiosidade. Ele estava preparado para o parto em casa. Toda noite, antes de dormir, a gente lia o livrinho da Naoli e ele esperava a irmãzinha com alegria.

Eram quase nove da noite. Pedi ao meu companheiro para avisar a doula e a parteira. Niti chegou às 22h. Adelita, às 23h. Gael foi pra cama. Dormiu a noi-te-to-da! Mesmo com os gemidos, gritos e conversas no quarto ao lado do dele. Agora, lembrando, não sei o que eu faria se ele estivesse acordado. Foi melhor assim. O universo é sábio e amoroso.

Minha ida para a partolândia foi lenta. Fiquei conversando assuntos diversos com as mulheres no quarto, em cima da cama, até ficar em quatro apoios e não conseguir sair nunca mais daquela posição, uma contração atrás da outra, Adelita querendo fazer um exame de toque, meu corpo recusando, Niti acariciando minhas mãos e me olhando nos olhos, eu no meio da cama, alguém me fazendo massagem suave nas costas, na nuca, todos insistindo pra eu ir pra piscininha, “que piscininha?”, eu pensava, achando que estavam loucas, eu não tinha planejado parto na água, nem tinha piscina, do que estão falando?

Depois de um tempo infinito e já com 8 de dilatação, encorajada pela persistência das três pessoas que escolhi para estarem comigo nesse momento, resolvi ir pra piscininha imaginária e ela estava lá, no box, parecia um ofurozinho, o vapor da água quente inebriando o banheiro. Entrei, meu corpo todo pareceu se dissolver, e eu era a água, o vapor, a contração, o grito, a dor, o gemido, o corpo se abrindo, a vulva expandindo, a vida pulsando. Quero sair daqui!, foi meu grito imaginário. Levantei, agarrei os braços do Diego e todo o universo vibrou no meu grito, rasgando a noite, a pele, o silêncio. Olhei para a água e ela estava lá. E, logo, em minhas mãos.

“Meu amor, meu amor, meu amor”. Ela nasceu. E eu, eu estava imersa em seu brilho, despertando em amorosidade. E ainda estou, a cada vez que olho em seus olhos luminosos.

Amarilis. Esse é mesmo seu nome.

Maris

Primavera/2019

02.10.2019 – 23h58

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