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Parto e sexualidade: empodere-se do seu prazer

A potência de conceber, gestar e parir pode ser algo tão imenso, transformador e libertador que assusta. Sim, assusta (e muito) os homens e por isso eles tentam com todos os recursos “filosóficos”, “científicos” e tecnológicos – criados por eles próprios na cultura patriarcal – nos privar do acesso a esta potência. Como? Através da linguagem impregnada de machismo disfarçado, através do mercado da maternidade romântica, através da indústria da cesárea, através da hiper-medicalização na gestação, no parto e no puerpério, entre outras coisas ainda mais sórdidas, porque mais sutis.

Mas acessar esta potência feminina-criativa-materna assusta também as mulheres.

Quantas de nós tivemos medo “da primeira vez”? Quantas de nós desconhecem o próprio corpo, o próprio “aparelho reprodutor”, o próprio “órgão sexual”? Quantas de nós realmente já teve um orgasmo e quantas acreditam que é “normal” não ter? Quantas de nós tivemos medo de parir e “escolheram” a cesárea? Quantas de nós aceitaram as ordens do obstetra como autoridade máxima e inquestionável? Quantas de nós foram medicadas, anestesiadas, dopadas, cortadas, mutiladas, violadas – e isso foi visto apenas como uma “rotina de cuidados” com a mulher gestante/ parturiente/ puérpera?

E num nível mais sutil, mas não menos violento: quantas de nós tivemos uma educação repressora e machista, nenhuma educação sexual, e sofremos diversos tipos de abusos emocionais, psicológicos e físicos ao longo da infância e da adolescência?

É de se esperar que, nestas condições, a menina, a jovem, a mulher, sinta-se acuada e com medo de acessar o próprio corpo – acessar o próprio poder.

Estou falando aqui do quanto a desvalorização da mulher – passando pela infantilização da “mãezinha” até a ultra-sexualização precoce do corpo feminino à serviço do homem – influencia diretamente em nossa capacidade de parir ou não parir.

É preciso soltar os nós que nos amarram sem mesmo nos darmos conta, para resgatar uma sexualidade que honre e valorize a mulher, que seja saudável e conectiva.

O empoderamento feminino passa por se empoderar da própria sexualidade.

E, sim, mulheres: o parto é um evento da nossa vida sexual! Parir faz parte de nossa sexualidade feminina. Se queremos resgatar nossa potência para parir, é preciso resgatar nossa potência sexual e permitir que a energia vital pulse em nós! É preciso resgatar a conexão com o mais profundo de nosso ser, honrar nosso útero – centro de poder, de saber, de prazer – honrar nossa feminilidade, nossa capacidade criativa, nossa força de vida, nossa capacidade de sentir e dar prazer.

Sim, sentimos (muita) dor no parto, mas não precisamos sofrer. O parto, assim como o ato sexual, pode ser prazeroso – porque nosso corpo tem todos os canais e pontos necessários para o prazer acontecer. Mas é preciso cocriar as condições para que isso aconteça. E isso vem com o processo de empoderamento muito anterior à data prevista do parto.

Então, repitam comigo:

– O parto não precisa ser sinônimo de sofrimento.

– Parto em casa não é loucura.

– Parto “humanizado” é o mínimo que toda mulher merece e precisa.

– Doulas ajudam, sim – e muito.

– Bem parir vem de bem transar!

– O parto faz parte da sexualidade feminina.

Empoderamento sexual vem acompanhado de mudanças de muitas crenças que carregamos desde a infância. Acredite que você pode e merece se dar prazer. Aceite e acolha seu corpo. Você tem direito de conhecer seu próprio corpo e descobrir o que realmente gosta. Você pode se tocar e se dar amor e prazer.

Muitas mulheres sentem-se frustradas em sua vida sexual, sobretudo no casamento. Eu quero te contar um segredo, que compreendi e integrei verdadeiramente há pouco tempo: fazer amor verdadeiramente é o resultado de me permitir me dar amor e prazer a mim mesma, de ter consciência de que meu prazer vem de mim mesma. Quando eu me permito me dar prazer, isso se expande e faz circular a energia vital em mim, transbordando de forma que posso “dar” prazer ao outro. Se você ficar esperando que seu companheiro te satisfaça e adivinhe o que você quer e precisa, talvez passe a vida frustrada. Empodere-se de seu prazer!

Conecte-se ao seu bem maior: seu útero, seu centro de poder, de saber, de prazer. Acaricie sua vulva. Conheça seu corpo por dentro. Se toque, se masturbe, se redescubra. Permita-se sentir prazer consigo mesma. Permita-se nutrir a si mesma de amor e prazer. Traga para o corpo tudo o que a mente quer dominar e deixe que seu lado mais instintivo domine sua mente, nem que seja por alguns momentos! Torne isso uma parte – gostosa – de sua rotina de autocuidado, desligando-se do mundo externo e centrando em seu ser feminino criativo e potente.

Conhecimento é poder. Conhece-te a ti mesma, já dizia o oráculo. Ou corre o risco de ser devorada pelo patriarcado.

Conhecimento vem, sim de informação de qualidade, de leituras consistentes, de conversas e trocas com amigas, de grupos de apoio. Mas vem também deste momento em que você se permitir se olhar, se tocar, se sentir, se descobrir e desabrochar. Seu corpo é só seu. Você precisa conhecê-lo melhor do que qualquer outra pessoa. Este é o conhecimento que será mais significativo para seu processo de empoderamento sexual, para o mergulho em sua sexualidade e para a abertura ao processo de parto.

Descubra-se e crie coragem para assumir o que você quer, seja no sexo, seja no parto! Converse sobre isso abertamente com quem te acompanha – seu companheiro ou companheira, seu obstetra ou sua parteira, sua doula, suas amigas. E, se não compreenderem ou ridicularizarem suas necessidades, reavalie a relação com estas pessoas.

Você merece uma vida – e sua sexualidade faz parte da vida – plena!

Vamos juntas!

Todos os textos da sessão “Escrito à Mãe” do site cultivandocuidado.com bem como os textos do perfil no Instagram @cultivandocuidado são de autoria de Maristela Lima. Se estas reflexões fazem sentido para você, talvez elas sirvam também para suas amigas mães. Compartilhe com elas o link deste artigo e sempre cite a autoria. Assim, você valoriza e apoia o trabalho de uma mãe que escreve, contribuindo para que mais mulheres se beneficiem e me motivando para que eu continue a oferecer às mães conteúdos importantes, gratuitos e de qualidade.

Entre mães, precisamos no apoiar.
Com amor e gratidão,
Maris.

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