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Mãe, mulher, humana

“Como é ser uma mulher empreendedora com filho pequeno?”, foi a pergunta que ouvi recentemente. Mas a pergunta que eu mais me faço é: como podemos cocriar as condições para que mulheres mães possam ter uma vida digna, com tempo para os filhos e para si mesmas, e com saúde, disposição e energia para realizar seus sonhos e fazer outras coisas que as nutrem, além da maternidade?

Criei o projeto Cultivando o Cuidado para apoiar outras mães a co-criarem relações mais saudáveis e conscientes consigo mesmas e com as crianças. Ao mesmo tempo, a criação deste projeto veio de encontro à necessidade de cuidar da minha própria relação com meu filho, incluindo-o em meu dia-a-dia, com horários flexíveis e tempo de qualidade para estar com ele. Eu não quero mais me submeter a horários absurdos de empresas e instituições que impedem o pleno exercício da maternidade, que não respeitam o ritmo de amamentação nem as necessidades de presença e conexão entre mãe e filho – ou o mínimo de descanso que uma mãe precisa.

Atuei como docente durante muitos anos, no ensino universitário sobretudo. Tive meus seis meses de licença-maternidade e emendei com as férias de verão, o que deu quase nove meses para estar com meu filho. E, “ainda assim”, quando voltei ao trabalho, eu saia de casa chorando, ele ficava chorando e, às vezes, eu voltava, ele ainda estava chorando… Meu coração despedaçava-se a cada vez que nos separávamos. Ele ficou doente. Eu também. Fui diagnosticada com estresse E depressão. Prescreveram medicamentos. Não tomei: eu estava amamentando e não ia intoxicar meu bebê com pílulas produzidas por uma sociedade que só visa a “saúde” para a produção de capital e não o verdadeiro bem-estar do ser humano. Enfim.

Eu só queria ser mãe em tempo integral. Era isso o que eu precisava. Era o que meu bebê precisava. Era o puerpério, natural e humano, acontecendo.

Fico pensando nestas mães que tem 4 (quatro!) meses de licença maternidade. Pelo amor das deusas! Com quatro meses tudo o que a criança precisa é da mãe! O que uma recém-mãe mais precisa é ter segurança de que seu filho está bem! Aí as mulheres ficam doentes, os filhos ficam doentes, mas tem remédio pra tudo, né? A mãe toma anti-depressivos, a criança toma calmantes ou uma mamadeira cheia de açúcar branco… e assim vai-se perpetuando a sociedade anti-vida em que estamos.

Tem algo muito, muito errado nisso tudo.

Se a sociedade em que vivemos fosse estruturada de forma à servir à vida, à cuidar do que realmente importa, não seria preciso tanto anti-depressivo, calmantes, ansiolíticos, rivotril. Diagnósticos servem à nos encaixar em categorias, a nos desumanizar e a camuflar o que realmente está em questão: a doença que se manifesta na mãe e/ou na criança é reflexo de um sistema social doentio. Não adianta diagnosticar e medicar mãe e filho: é preciso mudar o sistema.

Ter entrado no papel de mãe me lembra diariamente que este mundo, do jeito que está, não é o mundo que eu desejo para mim nem para meu filho. Desejo uma outra sociedade para nós – e para todas as crianças, para todas as mães, para todas as mulheres e homens. Para todos os seres humanos, enfim. Um mundo que honre a vida humana preciosa. Um mundo em que “parto humanizado” seja simplesmente “parto”, porque aceita o parir como algo natural e vital para o bom desenvolvimento não apenas daquele ser humaninho e daquela mulher em questão, mas de toda a humanidade. Se precisamos lutar por “parto humanizado”, contratar “obstetra humanizado”, “pediatra humanizado”, é porque a desumanização chegou a um grau tão extraordinário que nem percebemos o absurdo que é pagar (e caro) por um parto com respeito à mulher e à criança – dito “humanizado”.

Nasci mulher e renasci aos 38, ao me tornar mãe. E todo dia eu tento exercer estes papéis investigando o que tem de mais autêntico em mim, o que me faz realmente sentido, o que serve realmente à vida, o que irá contribuir para a co-criação de uma sociedade mais “humanizada”. E só com muito apoio eu consigo isso. E busco apoio porque não quero a herança patriarcal ditando regras de como agir, de como falar, de como parir, de como educar meu filho, de como ser mãe, de como ser mulher – bela, recatada e do lar. Minha beleza está em meus atos. Meu lar é este planeta. E não evito conflitos se acho que ele é necessário para transformar situações angustiantes em algo que sirva melhor à vida. Então, não: recato não é algo que me cabe.

Não, eu não sou boazinha. “Ué? Mas você não fala de Comunicação Não-Violenta???”

A não-violência não é sinônimo de ser boazinha, amiga. Não-violência é, entre outras coisas, não compactuar com o opressor. Se eu me calo, compactuo. Se aceitamos e agradecemos flores de um patrão que não nos concede uma licença-maternidade digna, compactuamos. Se eu não fazemos nada quando uma mulher é humilhada, negligenciada, desvalorizada, calada, violada, compactuamos. Se perpetuamos discursos que colaboram para a diminuição da mulher, compactuamos. Se demosntramos preconceito – em atos ou palavras – contra gays, lésbicas, negros, crianças, idosos e outras “minorias”- estamos compactuando com o sistema opressor, o mesmo que oprime a mulher.

Então, não quero mais compactuar. Quero nos apoiar a sair do torpor e da inconsciência que compactua sem perceber. Quero repensar meu lugar no mundo. Eu, mãe, mulher, humana. E precisamos de muito apoio para esse desentorpecimento. Vamos juntas?

mães unidas

Juntas nos fortalecemos para persistir no caminho de cuidar da vida.

Porque a resposta a que acabo invariavelmente chegando, para a pergunta que me faço lá no início, é: precisamos de comunidade, de rede de apoio, precisamos umas das outras. Precisamos estar juntas, compartilhar nossas histórias, nossos medos, nossas pequenas vitórias cotidianas. Precisamos nos doar umas às outras, nos apoiar, nos ouvir, nos cuidar mutuamente. Porque a mudança começa em nossas relações e porque juntas nos fortalecemos para persistir no propósito de servir à vida.

Então, sabem, não me desejem “feliz dia das mulheres”. Ao invés disso, me dê a mão e vamos [email protected] construir um outro mundo possível – em que não seja necessário um “dia da mulher”, porque ela será honrada, respeitada e valorizada todos os dias.

E, não, homens, não me deem flores. Me ajudem a plantá-las e a cultivá-las com cuidado. Não, não me deem chocolates. Me apoiem a criar as condições para que as necessidades de todas as pessoas (e na categoria “pessoas” incluem-se mulheres, crianças, idosos e todas as “minorias”) estejam atendidas, para que não precisemos mais nos anestesiar para sobreviver à dor do mundo (seja com drogas ou medicamentos, com televisão ou internet, com chocolate parafinado ou pornografia).

Não, não quero sobreviver: quero a vida plena, pulsante, nutrida!

E você, o que quer?


Todos os textos da sessão “Escrito à Mãe” do site cultivandocuidado.com bem como os textos do perfil no Instagram @cultivandocuidado são de autoria de Maristela Lima. Se estas reflexões fazem sentido para você, talvez elas sirvam também para suas amigas mães. Compartilhe com elas o link deste artigo e sempre cite a autoria. Assim, você valoriza e apoia o trabalho de uma mãe que escreve, contribuindo para que mais mulheres se beneficiem e me motivando para que eu continue a oferecer às mães conteúdos importantes, gratuitos e de qualidade. Entre mães, precisamos no apoiar.
Com amor e gratidão,
Maris.

This Post Has 2 Comments
  1. Existe um sistema criado para o mercado de trabalho, em vez de existir um sistema para o ser humano, que dê condições para a mãe voltar ao trabalho e/ou condições para a mãe empreendedora.

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