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Mãe cansada, mãe julgada.

Sabe qual é o sonho comum à toda mãe? Dormir uma noite inteira, sem interrupções, durante umas oito horas. Sonhamos (acordadas) com este momento durante todo o puerpério: um momento de descanso, um momento de paz, um momento só para nós.

Vários estudos comprovam que nós, humanos (raça na qual se incluem também as mães, vale lembrar), para nos sentirmos suficientemente descansados e dispostos durante o dia, precisamos de 7 a 9 horas de sono, profundo e sem interrupção, para que o organismo se restaure e se prepare para o dia seguinte. 

Não conheço nenhuma mãe que consiga dormir assim nos primeiros anos de vida da criança. Nenhuma.

Eu mesma, só tive uma noite de oito horas de sono contínuo quando viajei e passei uma noite fora. Gael, então com mais de dois anos, pela primeira vez dormiu só com o pai e ambos sobreviveram sem mim. Já contei para vocês esta história. Liberdade é pouco para descrever a sensação. Foi um alívio, um descanso tão profundo, uma arejada nas ideias, uma renovada na vida, sabe?

Porque a privação de sono não provoca apenas cansaço, fadiga, diminuição dos reflexos, sonolência, envelhecimento precoce, queda da imunidade, dificuldade de concentração, problemas de memória, diminuição da libido e ganho de peso. Os efeitos nocivos de noites e noites mal-dormidas alteram também nossas respostas emocionais, aumentando o estresse (tive) e podendo causar depressão (também tive), além de alterar nossa capacidade de atenção, memória e aprendizado e nossa habilidade de tomar boas decisões. Ou seja: a saúde mental é totalmente afetada pela falta de sono. A minha foi.

mãe dormindo com filho no colo

Antes de julgar uma mãe, tente ficar dois anos em privação de sono.

Agora, se você não é mãe, coloque-se no lugar de uma mãe com bebê e/ou com criança pequena. Você consegue imaginar quantas vezes por noite o sono desta mulher é interrompido? Depois dos filhos, as noites nunca mais são as mesmas. Aprendemos a sobreviver dormindo 3 horas por noite, ou curtos períodos de uns 50 minutos entre uma mamada e outra, entre um choro e outro, entre uma fralda molhada e outra, entre o sobressalto e o conferir se está respirando. Fora as noites de febre, dentes nascendo, tosse, angústia da separação, saltos de crescimento, entre outras aventuras ao longo da maternidade.

Como uma mãe se sente durante o dia? Como você se sentiria se houvesse um alerta de hora em hora interrompendo seu sono todas as noites, durantes meses, ou mesmo anos?

Pois é. Sem dormir, podemos surtar.

A privação de sono afeta diretamente as amígdalas cerebelosas, neurônios responsáveis pelos sentimentos e emoções, e o hipocampo, parte do cérebro também relacionada às emoções. Quando não dormimos suficientemente, há uma desconexão entre as amídalas cerebelosas e o córtex pré-frontal, que cuida, entre outras funções, de regular as reações emocionais. O resultado disso é a expansão de emoções negativas, o descontrole emocional e, à longo prazo, a depressão.

Enfim, é natural que nestas condições um ser humano perca a paciência de vez em quando, né? E, infelizmente, às vezes acabe descontando na criança (ou no marido/ companheiro/ companheira) tudo isso. Por mais que você ame, às vezes, as relações se desgastam, pelas condições em que estão inseridas. É um problema sistêmico, não é sua culpa, amiga. Se você é mãe, certamente já teve crises de raiva e/ou choro, seguidas de culpa e mais culpa, por ter perdido o controle com seu filho. Então, amiga, antes de tudo: perdoe-se e acolha-se. Você é humana antes de ser mãe, lembra? E vivemos num sistema que precisa ser re-humanizado, ou seja: no qual as pessoas precisam urgentemente se permitir sentir para perceber que todos somos dignos de respeito e que só nos re-humanizamos quando nos enxergamos verdadeiramente uns aos outros, para além de rótulos que nos oprimem a todas e todos.

Sim, é desejável que a gente resolva os conflitos com as crianças de forma amorosa, “firme e gentil”. É desejável que a gente saiba administrar nossas emoções para ensinar nossos filhos a desenvolver a inteligência emocional e relacional. É desejável que mãe e pai criem um ambiente saudável para o bom desenvolvimento físico, mental e emocional das crianças. Só que pra isso, gente, é preciso que a mãe possa ter esta necessidade básica atendida: sono, descanso. Se ela não dorme à noite porque está sozinha cuidando do bebê, então precisa, no mínimo, de algum outro momento de repouso ao longo do dia para seu organismo se restaurar. Se você pode fazer alguma coisa para contribuir para que esta necessidade básica de uma mãe seja atendida, faça.

Se você é o pai, ofereça-se para atender seu filho ao menos algumas vezes à noite. Sem reclamar, sem criticar e sem aconselhar. Apenas vá. E não julgue a mãe.

Se você é amiga ou amigo de uma mãe, ofereça-se para ficar com o bebê enquanto ela toma um banho ou tira uma sonequinha durante o dia. E não julgue-a.

Se você é parente de uma mãe, lave a louça, faça as compras, leve um bolo, tente tornar o dia-a-dia dela mais leve. E não dê palpites. Não compare. Não julgue.

Se você não é mãe nem tem amigas mães nem quer saber das mães, apenas não as julgue.

Mãe cansa.  Não de ser mãe, mas de não ter as condições necessárias para vivenciar a maternagem de forma sustentável. Precisamos de muito mais apoio do que geralmente dispomos. Precisamos de comunidade que nos dê suporte. Precisamos de uma política que respeite os direitos das mulheres e das mães. Precisamos de licença-maternidade e licença-paternidade decentes. E, enquanto isso não existe, precisamos (muito) umas das outras. Precisamos de um abraço e um olhar amoroso. E às vezes, precisamos apenas de alguém que nos ouça, sem julgar, nem criticar, nem comparar, nem dar palpites, nem querer resolver por nós.

Então, antes de julgar uma mãe, tente ficar dois anos em privação de sono. E, se acha que não vai conseguir, ofereça seu apoio a cada mãe que você encontrar a partir de já.

Por mais empatia e menos culpa.

De mãe para mãe, com amor,
Maristela



Todos os textos da sessão “Escrito à Mãe” do site cultivandocuidado.com bem como os textos do perfil no Instagram @cultivandocuidado são de autoria de Maristela Lima. Se estas reflexões fazem sentido para você, talvez elas sirvam também para suas amigas mães. Compartilhe com elas o link deste artigo e sempre cite a autoria. Assim, você valoriza o trabalho de uma mãe que escreve e apoia este trabalho, contribuindo para que mais mulheres se beneficiem e me motivando para que eu continue a oferecer às mães conteúdos importantes, gratuitos e de qualidade.

Entre mães, precisamos no apoiar.
Com amor e gratidão,
Maris.

This Post Has One Comment
  1. Eu estou ha 3 anos e meio sem dormir mais de 4 horas seguidas. Há noites que durmo 5 horas. Tenho dois pequenos. Um de 3 e um de 1. Emendei a amamentação também. Tenho todos os sintomas do texto. E cruel essa provação de sono. Esse mês vou tentar desmamar meu pequeno com o coração na mão, mas com a certeza que fiz meu máximo. Meu apoio as mamães!!! Quem não passa não entende.
    Camila.

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