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O menino e o trem

E aí você completou três anos de vida, aqui neste pequeno planeta. Lembro da sua vinda a este mundo, envolto em sopros de amor e alívio. Lembro o primeiro sorriso, depois de você ter sentido o ar em seus pulmõezinhos pela primeira vez, olhando em meus olhos, emanando amor e luz. Lembro como eu dormia e acordava várias vezes durante a noite para ouvir você respirar. E eu te desejava o ar mais puro, um sopro de vida mais doce. E aquilo era uma brisa suave para mim, como quando colamos o rosto para fora da janela do trem de ferro que vai lentamente. Antes do vendaval do puerpério.

Aí vieram as noites em claro, o peito rachado, a mastite, o cansaço, a solidão, os medos.  E, quando a exaustão parecia vencer, você me olhava e de repente… um sorriso. Quando a insegurança surgia, você de repente segurava meus dedos com sua mãozinha tão forte e pequena e suave. Quando as dúvidas me tomavam e a solidão materna me assolava, você aprontava das suas: aprendia a virar, engatinhar, sentar, ficar em pé. E tudo então fazia sentido: a vida acontecia ali diante dos meus olhos, diante da minha confusão e apesar das dúvidas e incertezas.

Você veio num raio de luz, num dia de sol, no meio do dia.  Junto com você, vieram anjos. Companheirismo renovado, amigas e apoio e toda uma rede amorosa que se configurou em torno desta nova vida que se iniciava.

Junto com você, veio uma nova energia me habitar, uma potência e uma força que eu não sabia existir – e que surgiram com a mãe que nascia e se desenvolvia ao seu lado, esta nova mulher que foi se configurando à medida que você crescia. A vida se adapta, se recria, se auto-regula.

Durante um tempo que parecia infinito era como se fôssemos um só. Você no meu colo, você no meu peito, você sempre no meu coração, nos meus pensamentos, nos meus sonhos, na cama que já não era só do casal, na casa que agora era um lar, você em todas as horas.

E um dia você disse “mamá” e eu ouvi “mamãe”. Porque afinal era isso: amor, nutrição, colo, acolhimento. E um dia você fez um ano e naquela semana você soltou as mãozinhas e andou em direção ao papai. Ali começamos a ser dois.

Você caminhou em direção aos dois anos, expandiu meu horizonte, me motivou a investigar sobre infância e desenvolvimento, me escancarou minha própria criança ferida, me inspirou a me cuidar, me amar, me aceitar. Porque desejo que você se ame, se cuide, se aceite. Sempre.

E, com seus dois aninhos, veio o fim do puerpério e um novo ciclo para você e para mim. Dois aninhos, ah, the terribles twos! Quantas descobertas para você, quantas memórias revividas da minha infância e quanto de mim se refletia em você e me fazia querer ser melhor. Melhor quer dizer mais lúcida, mais livre, mais consciente. Para que você esteja livre dos padrões familiares que carreguei por tantos anos e dos quais agora me liberto – porque, nas dinâmicas da relação com você, ficam tão evidentes e é tão nítida a necessidade de mudança que não há outro caminho: a liberdade é o único trajeto a seguir.

Porque a vida é passagem, é trilho, é trem, é o passageiro ao lado, é o horizonte e a paisagem que vem e vai. A vida é, às vezes, tudo ao mesmo tempo agora, e às vezes, uma coisa de cada vez.

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E aí veio chegando seus três aninhos, lentamente como um trem antigo apitando ao longe, mas com a certeza de chegar. E, à medida que o dia se aproximava, tanta coisa acontecia aqui dentro, me revirava as entranhas e é como se eu estivesse me parindo, morrendo, renascendo, não sei dizer. Só sei que foi assim. “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”, já dizia Guimarães Rosa. E, com alegria e assombro, descemos em uma nova estação: você não é mais um bebê, eu já não sou mais a única fonte da qual brota tudo o que você precisa, meu corpo passou a ser só meu novamente, você já saiu para o mundo.

Pouco antes dos seus três anos, fizemos uma viagem de trem pela serra. E, quando eu me distraia  no celular tentando tirar fotos, você me chamava e dizia: “olha a paisagem”. Você, tão presente em sua pequena infância neste vasto mundo, presença tão intensa que chega a doer como se o coração fosse explodir de amor pulsante, livre, sagaz.

Para sua festinha, você escolheu “trem” como tema. Passei dias criando, cortando, desenhando, colando, preparando os enfeites, escolhendo músicas, separando fotos, inventando coisas. Cada detalhe, uma pitada de amor. Sabia que aquela era uma estação de despedida de um ciclo que se fechava para um outro se iniciar, com novos caminhos a percorrer. A vida, esta viagem cíclica e sem volta, segue seu rumo.

Às vezes, quero parar a locomotiva para impedir que o tempo passe tão veloz. Às vezes quero chegar mais rápido do que trem bala para te abraçar. Às vezes, quero só sentar à janela e ver a paisagem passar: você brincando, pulando, correndo, pulsando, mudando, crescendo.

“Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.” (Guimarães Rosa).

É o que você me ensina a cada dia desta viagem que escolhemos fazer juntos, meu filho. Nos altos e baixos desta cadeia de montanhas chamada maternidade, a paisagem muda a cada instante. Se me permito apreciá-la, com a presença que a velocidade da vida pede para ter sentido, percebo como este trecho da viagem é incrível e precioso, pois nossa bagagem é a infância e nosso destino é brincar de existir. E brincadeira é coisa séria para uma criança.

Agradeço cada trecho deste trilho sinuoso, pois tenho você, meu companheirinho, sentado no assento ao lado neste vagão. Vai devagar, que o amor é cada instante vivido no agora, e a vida é aqui mesmo – leve, suave, tranquila, ou a todo vapor. Vai no seu tempo. O tempo de amar.

Com amor, sempre…

Maristela


Todos os textos da sessão “Escrito à Mãe” do site cultivandocuidado.com bem como os textos do perfil no Instagram @cultivandocuidado são de autoria de Maristela Lima. Se estas reflexões fazem sentido para você, talvez elas sirvam também para suas amigas mães. Compartilhe com elas o link deste artigo e sempre cite a autoria. Assim, você valoriza e apoia o trabalho de uma mãe que escreve, contribuindo para que mais mulheres se beneficiem e me motivando para que eu continue a oferecer às mães conteúdos importantes, gratuitos e de qualidade.

Entre mães, precisamos no apoiar.
Com amor e gratidão,
Maris.

 

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