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Mamãe, não! – ou "the terrible twos"

“Mamãe, não!!!” Você tem ouvido com frequência esta frase? Aquele lindo bebê fofinho que até ontem dependia de você para tudo e para quem você era o mundo, agora nem te quer por perto? “Como sobreviver a isso mantendo a sanidade mental e emocional?”, eu me perguntava com frequência. E até tentava me responder: “Relax, it’s not about you. É só a fase da negação (que muitas vezes vira negação da mãe), conhecida como terrible twos”.

Mas sei que não é bem assim. Não adianta que nos digam que vai passar, que é só uma fase, que lá pelos quatro anos o amor pela mãe volta com mais força, que tudo isso tem uma explicação científica, blábláblá.

 

Ok, esta é uma fase pela qual praticamente todo ser humaninho passa. Acho importante levar em consideração que a criança está se deparando com várias mudanças. É uma época em que muitas estão passando pelo desfralde, pelo desmame, a entrada na escolhinha, as dores de crescimento (às vezes literalmente), ou a chegada de um irmãozinho, a mudança da cama compartilhada para um quarto só delas, enfim… São inúmeros os fatores que podem tornar este período dos 2 aos 3 anos, aproximadamente, um grande desafio para a criança… e um desafio enorme na nossa relação com ela.

 

criança brinancaod com tintas

Terrible twos? Para quem? (photo: senjuti-kundu)

Acredito que um ambiente equilibrado pode amenizar as dores desta “adolescência do bebê”. Mas não vai impedir que o que é natural desta fase aconteça. A criança, que está passando por mudanças fisiológicas incríveis, está também descobrindo sua individualidade e precisa exercer sua independência e autonomia, testar os limites, afirmar-se como ser separado da mãe, descobrir como lidar com as emoções. É saudável que ela responda ao mundo e tente se afirmar, expressando-se com as ferramentas que tem. E a criança vive no presente, tem um espírito aventureiro, vive fora da caixa: ela vai fazer aquilo que você nem imagina, aquilo que você julga perigoso, aquilo que você não quer que ela faça. Como está profundamente conectada com as próprias necessidades e emoções, luta com todas as armas que tem para atendê-las. E a isso, os adultos chamam “teimosia”, “birra”, “manha”… Aliás, quem denominou estes anos de “terríveis” foi algum adulto que não sabia lidar com isso. A criança está apenas sendo criança. E os nossos julgamentos sobre ela não contribuem para que esta fase seja mais tranquila.

Então, dito isso, sim, acho importante conhecer as fases de desenvolvimento infantil para lidarmos melhor com as crises que surgem. Sim, acho bacana saber das experiências de quem já passou por isso. E até entendo quem tenta nos consolar. Mas na verdade do dia-a-dia, o desafio é imenso. E no fundo, no fundo, dói. Para mim, doeu.

Aqui em casa, acontecia assim: Gael estava com o pai, fazendo o que quer que fosse e, quando eu chegava perto, logo vinha um “mamãe não!” Preferência explícita pelo pai e negação da mãe. Se eu estava num momento mais centrado, mais nutrida em minhas necessidades, eu até lembrava de todas as explicações sobre os terrible twos e pensava “maravilha! vou aproveitar o tempo pra mim”. Quando estava menos nutrida, tentava racionalizar: “é fase, os famosos terrible twos, vai passar, não é pessoal, ele ainda me ama (e quase escrevo “me mama”, porque era isso: parecia que ele só me procurava para mamar). Mas houve vezes que não foi assim. Houve vezes que tive muita raiva por ciúmes de meu companheiro. Houve vezes que sai de perto para chorar. Houve vezes que quis sumir. E sabe por que? Porque ativava as minhas dores infantis de rejeição. E aí, amiga, o negócio foi acolher as próprias dores e não responsabilizar a criança pela infância que eu tive. A criança que ali mostrava preferência pelo pai, cutucava, involuntariamente, a criança ferida na mãe.

Já ouviu falar que nossos filhos trazem à tona aquilo que está mais escondido em nós? Pois é, depois de algumas crises de choro (minhas) entendi que ele estava me dando a oportunidade de olhar de novo para essas dores e acolhê-las agora de um novo lugar – o lugar em que estou hoje: de uma mulher adulta, mãe, investigadora daquilo que serve à vida e disposta a ser a mudança que quero ver no mundo. E deste lugar atual, posso inclusive olhar para a criança que fui e acolhê-la, compreendê-la, empatizar com ela e cuidar para que ela esteja nutrida e não precise mais gritar suas dores.

E aí descobri que estas dores não eram só minhas, não. Ouvi muitos relatos de mães sofrendo com os terrible twos. Sentindo-se a última das mães, cheias de culpa por pensar que as crianças estão preferindo o pai porque a mãe está sempre cansada, sempre querendo uma pausa, sempre estressada. Ouvi literalmente de uma mãe: “a culpa é minha”. E tive vontade de gritar: “Não!!! Não precisamos acrescentar mais esta ao nosso rol de culpas maternas!”

Depois de mais de dois anos dedicando-me ao cuidado de outro ser humano, amamentando dia e noite, dormindo pouco ou quase nada, e reaprendendo a ser humana neste novo papel de mãe, enfim… eu também me sentia cansada, muitas vezes estressada, muitas vezes preferia que meu companheiro ficasse com meu filho para eu simplesmente respirar um pouco. E, sim, a culpa muitas vezes me rondou.

Mas aprendi que há coisas que são nossas e outras que não são. Há a nossa própria história de vida e há a história deste novo serzinho, que tem, sim, vida própria – como descobrimos, ambos, por volta dos dois anos. Então, o que acontece na relação é o resultado do encontro destas duas histórias, destes dois seres humanos, que, como todo ser humano, querem evitar o sofrimento e viver em paz e harmonia. O que me apoia nisso é observar, perceber os sentimentos, descobrir para onde eles apontam, quais necessidades estão vivas nas interações e como cuidar destas necessidades, disso que realmente importa para nós – e que cuida da relação, cuida dele e cuida de mim.

Estou curando minhas próprias dores de infância. E, ao me libertar delas, libero meu filho para passar pelas crises dele sem o peso extra da criança ferida da mãe.

E os terrible twos estão passando mais suavemente. Porque terrível mesmo é culpar o outro por algo que é seu ou se culpar por algo que não é. Vamos abolir a culpa de nosso vocabulário? E que tal, no lugar disso, assumir a responsabilidade pelos próprios sentimentos? Assim, ensinamos nossos filhos a se responsabilizarem pelos deles. E todos vivem mais  felizes. Não para sempre, mas a cada novo dia (ou só por hoje). Amém.


Você já passou ou está passando por esta fase com sua criança? Como tem sido para você? Conta pra gente aqui nos comentários.



Todos os textos da sessão “Escrito à Mãe” do site cultivandocuidado.com bem como os textos do perfil no Instagram @cultivandocuidado são de autoria de Maristela Lima. Se estas reflexões fazem sentido para você, talvez elas sirvam também para suas amigas mães. Compartilhe com elas o link deste artigo e sempre cite a autoria. Assim, você valoriza e apoia o trabalho de uma mãe que escreve, contribuindo para que mais mulheres se beneficiem e me motivando para que eu continue a oferecer às mães conteúdos importantes, gratuitos e de qualidade. Entre mães, precisamos no apoiar.
Com amor e gratidão,
Maris.

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