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Maternidade opressora?

Ser mãe é padecer no paraíso? E quem não quer padecer assim, tem lugar? Acho necessário olhar muito além da relação mãe-filho, esticar os olhos para o sistêmico, reconhecer o quanto de opressão pode haver na maternidade – opressão sustentada pelo que é socialmente aceito e esperado das mulheres.

É esta opressão que instiga muitas mulheres a odiarem ser mães – e a se odiarem por isso, achando que a “culpa” é delas ou dos filhos. Não, amiga, o buraco é mais embaixo e bem maior do que se imagina. É sistêmico. É quando acaba a licença maternidade e você fica deprimida ou estressada e seu filho fica doente e a única responsável por isso parece ser você, que “o abandonou”. Não, amiga, a depressão, o estresse, a doença, são resultados de um sistema anti-vida em que estamos inseridas, que não reconhece a importância do bebê passar os três primeiros anos de vida com a mãe. É quando você briga com seu marido “por causa dos filhos” e você parece a louca. Não, amiga, você está exausta pelas noites mal-dormidas, pelo excesso de responsabilidades, pela falta de reconhecimento, falta de apoio, falta de acolhimento (não do marido, mas de toda a sociedade). Você está desnutrida. Porque as estruturas em que vivemos esperam que cada uma dê conta de seus filhos, sem que estas estruturas permitam as condições necessárias para que a gente crie nossas crianças com dignidade para nós e para elas. E esta mesma sociedade nos vende a idéia de que “maternidade é uma benção”, de que “amamentar é um ato de amor”, e outras frases feitas e não questionadas que nos oprimem e levam muitas mulheres a engravidarem sem consciência do que as espera no puerpério – e pelo resto da vida. Não ser mãe, não ter filhos, também é uma opção. Quantas mulheres tinham verdadeira consciência disso e condições de realmente escolher antes de serem mães? Quantas se arrependem de terem tido filhos e levam caladas esta dor, esta culpa, esta contradição no peito (já que, sim, também há amor)?  Quantas de nós estamos realemnte felizes, plenas e satisfeitas vivenciando a maternidade. Precisamos de espaços para falar sobre isso abertamente. Calar o que se sente é esconder parte de si mesma, negar-se, morrer um pouco. Precisamos nos ouvir…

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” (Bertold Brecht)

Em uma entrevista com a socióloga Orna Donath, publicado originalmente em El Pais, ela diz: “Reconhecer o que se passa com você alivia. Se você sofre e não sabe identificar o que acontece, pode acabar culpando os filhos em vez de culpar a circunstância de ser mãe. As pessoas costumam dizer: enterre seus sentimentos e siga em frente, mas acho que reconhecer as emoções pode ser um alívio. Do ponto de vista social, o fato de as mulheres reconhecerem seu arrependimento pode ser um sinal de alerta para que se deixe de pressioná-las a serem mães, de vender a ideia de que a maternidade vai valer a pena para cada uma delas. Pode ser que as mulheres sejam biologicamente iguais entre si, mas somos diferentes umas das outras. Algumas querem ser mães, e outras não.”

maternidade real mães oprimidas

A maternidade é opressora ou isto é fruto da sociedade anti-vida em que estamos inseridos?

A questão é que é necessário criar as condições para que estas escolhas sejam conscientes! E não continuar vendendo e comprando a imagem da mãe do comercial de margarina! Porque isso é compactuar com a opressão. “Parece que o parto, a amamentação e a criação têm de ser experiências maravilhosas. A maternidade é uma relação humana como qualquer outra, não o reino mítico que vendem. Quando a experiência materna não é tão maravilhosa quanto se supõe que deveria ser, muitas mulheres se sentem monstros. Reduzir as expectativas faria com que se considerassem menos culpadas. É como o amor, nem sempre é cor de rosa.”, diz Orna.

Para ela – e eu concordo – “há uma percepção de que este debate é perigoso para o Estado e para a ordem social, que estabelece que a essência das mulheres na vida é serem mães. E eu proponho que é possível não ser mãe e também ser e depois se arrepender. O problema é que não há um roteiro alternativo. As pessoas não conseguem imaginar outras opções porque a imaginação está tomada por um discurso único, segundo o qual para ser feliz é preciso ter filhos.”

Eu tenho um filho. Escolhi isso com toda a consciência que tinha há três anos atrás. Não me arrependo. Amo imensamente grande parte dos momentos com ele. Amo acompanhar seu desenvolvimento, suas descobertas, suas percepções. Ao mesmo tempo, sei o quanto é desafiador inúmeros outros momentos, inúmeras situações e várias das consequências  na minha vida por eu ter feito esta escolha – eu, que tenho muitos privilégios que a imensa maioria das mães deste país não tem (já começa pelo simples fato de ser branca,  diplomada, casada, vacinada). Ter um filho me abriu os olhos para diversas questões sistêmicas que as mães enfrentam diariamente – e que são vistas como “problema delas”. Não, amiga, não é um “problema seu”. É um problema social.

Não é a maternidade que é opressora, é a sociedade. Parem de culpar as mães. Parem de se culpar, mulheres. Todos somos corresponsáveis.

Você escolheu ser mãe? Você está satisfeita? O que você gostaria que fosse diferente do que é hoje? Como este texto chega em você? Vamos refletir sobre isso juntas?

Abraço, com amor e gratidão…
Maristela


Todos os textos da sessão “Escrito à Mãe” do site cultivandocuidado.com bem como os textos do perfil no Instagram @cultivandocuidado são de autoria de Maristela Lima. Se estas reflexões fazem sentido para você, talvez elas sirvam também para suas amigas mães. Compartilhe com elas o link deste artigo e sempre cite a autoria. Assim, você valoriza o trabalho de uma mãe que escreve e apoia este trabalho, contribuindo para que mais mulheres se beneficiem e me motivando para que eu continue a oferecer às mães conteúdos importantes, gratuitos e de qualidade. Entre mães, precisamos no apoiar.
Com amor e gratidão,
Maris.

 

This Post Has One Comment
  1. Sou mãe recentemente é senti na pele essa opressão, não pude amamentar meu filho de 2 meses. Ele tem muitas cólicas noturnas e viro a noite com ele, ficando muito cansada. Em lugar de alguém ajudar, ficam criticando por não estar arrumada ou se digo que estou cansada dizem que não nasci pra ser mãe porque tinha que estar feliz e não reclamar. Assim deixei de conversar com as pessoas para me sentir melhor e guardo tudo pra mim. Quando tenho.buscar informação sobre o melhor uso do leite artificial, nos sites, há um bombardeio de críticas a essa alimentação, técnicas para a mulher voltar a amamentar, como se dar a fórmula fosse o mesmo que dar veneno. Nos amamos nossos filhos, podemos errar mas nunca por mal, deveríamos ter o direito de ser humanas às vezes e não ser uma super mãe 24 horas.

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