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Ouvir e ser ouvida

Há um post que circula de vez em quando pelo facebook que diz algo assim: “Entre o que eu penso, o que quero dizer, o que creio dizer, o que digo, o que você quer ouvir, o que você ouve, o que você crê entender, o que você quer entender e o que você entende, existem nove possibilidades de não nos entendermos”.

Marshall Rosenberg, criador da “Comunicação Não-Violenta“, disse em algum momento de sua vida, que “90% (não sei se era bem esta a porcentagem, mas era alta) de nosso sofrimento vem de nossas interpretações”.

O filósofo alemão Friedrich Hegel dizia que “Quando a imaginação é forte demais, a realidade não tem chance.“

O que a frase do facebook, Marshall e Hegel tem em comum? Para mim, é a mensagem de que uma comunicação que fortalece as conexões entre as pessoas apoia-se naquilo que é, não naquilo que imaginamos, que interpretamos, que trazemos de nossa própria história passada e projetamos na situação presente.

A boa notícia é que, mesmo a linguagem humana sendo limitada, há formas de minimizar os desencontros e favorecer a compreensão.

“Quando falamos, quanto mais claros formos a respeito do que desejamos obter como retorno, mais provável será que o consigamos. Uma vez que a mensagem que enviamos nem sempre é a mesma que é recebida, precisamos aprender como descobrir se nossa mensagem foi ouvida com precisão.” (Marshall Rosenberg).

E como descobrir? Perguntando. Simples assim. “O que você me ouviu dizer?” “O que você entendeu do que eu disse?”

Com meu filho, tenho desenvolvido este hábito. Sempre confirmo com ele o que eu entendi do que ele disse, em forma de pergunta. Aconteceu naturalmente, desde muito cedo. Mesmo antes de ele aprender a falar, ao observá-lo eu tentava “traduzir” o que ele queria dizer e colocar então em palavras. Talvez todas as mães façam algo semelhante a isso, instintivamente. Agora, com mais de dois anos, ele já domina muitas palavras e expressões. E eu continuo com o hábito de verificar o que ele quer dizer. Acredito que isso o apoia não apenas a aumentar seu vocabulário e desenvolver a linguagem, mas a desenvolvê-la de forma mais fina, criando este momento de verificação do que é dito, aumentando as chances de compreensão entre ele e eu, de uma forma mais profunda, que nos conecta mais, que fortalece nosso vínculo, que nos traz à presença.

Independentemente se a criança já usa palavras ou não, parece-me que o que importa mesmo é a disposição em conectar-se a ela de coração, a abertura e disponibilidade em ouvi-la, a disposição em encontrar palavras que cheguem aos seus ouvidos de forma que ela a ouça de ponto em que ela está.

Verificar o que eu ouvi e confirmar o que a outra pessoa me ouviu dizer é uma forma que para mim tem se mostrado muito efetiva para realmente agir no presente, sem re-agir. Pois a simples verificação já me dá um tempo para respirar antes de qualquer ação.

Sabe quando a criança repete a mesma coisa várias vezes? Enquanto ela não for ouvida, podem acontecer duas coisas: ou ela continua repetindo ad infinitum ou ela se cala “para sempre”, na sensação de que ninguém a ouve mesmo… Eu vivi isso na infância. Talvez muitas de nós tenhamos vivido isso, porque palavra de criança não tinha muita importância, não é mesmo?

Com meu filho, eu valido o que ele diz, simplesmente repetindo o que ele me conta ou descrevendo o que está acontecendo. Acredito que isso faz com que ele se sinta ouvido, visto, com a sensação de que ele existe e que é importante para mim – e pelo que percebo nele (alívio, tranquilidade, bem-estar), acho que é por aí mesmo.

“Quando alguém realmente o escuta sem julgá-lo, sem tentar assumir a responsabilidade por você, sem tentar moldá-lo, é muito bom (…) Quando sinto que fui ouvido e escutado, consigo perceber meu mundo de uma maneira nova e ir em frente. É espantoso como problemas que parecem insolúveis se tornam solúveis quando alguém escuta. Como confusões que parecem irremediáveis viram riachos relativamente claros correndo, quando se é escutado.” (Carl Rogers).

disco riscado

Por que às vezes a criança repete algo como um disco riscado? Talvez ela só precise da confirmação de que foi ouvida…

Sabem aquela tia (ou tio, ou pai, ou mãe, ou… complete como quiser) que conta a mesma história, há anos, incansavelmente? O que será que há de tão precioso lá que até hoje ninguém ouviu? Sabe quando sua criança repete algo como um disco riscado? Talvez ela só precise da confirmação de que foi ouvida. E depois disso, talvez consiga ouvir você.

(Agora, uma questão beeem importante: eu só consigo ouvir verdadeiramente meu filho quando tenho espaço interno para isso. E este espaço é criado quando cultivo as condições para estar bem nutrida em minhas próprias necessidades, seja me ouvindo e me acolhendo com empatia, seja tendo apoio de pessoas que me ouvem e me acolhem. Então, caimos naquele assunto que já vimos por aqui: rede de apoio. Nós precisamos ser ouvidas, acolhidas, nutridas, para poder ouvir, acolher e nutrir. )

E você? Como você tem ouvido suas crianças? Como está sua comunicação com elas? Conta pra mim como chega esse texto em você. Abraços e até breve!

Maristela


Todos os textos da sessão “Escrito à Mãe” do site cultivandocuidado.com bem como os textos do perfil no Instagram @cultivandocuidado são de autoria de Maristela Lima. Se estas reflexões fazem sentido para você, talvez elas sirvam também para suas amigas mães. Compartilhe com elas o link deste artigo e sempre cite a autoria. Assim, você valoriza o trabalho de uma mãe que escreve e apoia este trabalho, contribuindo para que mais mulheres se beneficiem e me motivando para que eu continue a oferecer às mães conteúdos importantes, gratuitos e de qualidade. Entre mães, precisamos no apoiar.
Com amor e gratidão,
Maris.


DICAS DE LEITURA (clique nos títulos para saber mais) :
Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para seu filho falar, de Adèle Faber
Como falar para o aluno aprender, de Adèle Faber
Já tentei de tudo, de Isabelle Filliozati
Disciplina Positiva, de Jane Nelsen
Educar sem violência, de Ligia Sena
O poder do discurso materno, de Laura Gutman
Comunicação Não-Violenta, de Marshall Rosenberg
O Poder da Empatia, de Roman Krznaric
A coragem de ser imperfeito, de Brené Brown

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